Um trabalho apresentado por um psicanalista brasileiro em Paris me chamou atenção a respeito da importância do que o terapeuta fala para seu cliente. O psicanalista atendeu um homem de 30 e poucos anos que era bem-sucedido em vida profissional, mas não estava satisfeito com sua vida afetiva.
Sentia-se muito solitário embora vivesse cercado de pessoas. O rapaz definia seu comportamento sexual como “anormal”. Ele tinha diversas relações homossexuais num mesmo dia e seu único prazer era o de praticar sexo oral com os homens que encontrava.
Buscava seus parceiros sexuais nos lugares mais perigosos, muitas vezes em postos de gasolinas, canteiros de obras, e lugares afastados da cidade, expondo-se a grandes riscos constantemente. Nunca se encontrava novamente com o mesmo parceiro depois da primeira vez, não tinha a menor lembrança de seus rostos, apenas de seus órgãos genitais.
Antes de começar a terapia com este analista, o rapaz havia tentado outra com um analista diferente do qual saiu apavorado. Ao narrar sua vida sexual, para seu primeiro analista este lhe alertou sobre o perigo de contrair o vírus HIV.
O psicanalista disse apenas uma frase: que o paciente deveria se prevenir contra a Aids. Isto foi suficiente para ele sair lá extremamente angustiado, pois ele se recusava terminantemente a pensar sobre este assunto. Considerou que o analista tentara jogá-lo no fundo de um abismo, ao lhe falar de uma coisa tão desesperadora que quase o levou a um colapso psíquico.
Vamos analisar, rapidamente, a postura deste profissional. Ao perceber os inúmeros riscos que o rapaz estava correndo com suas atitudes, o analista tentou alertá-lo sobre seu comportamento altamente autodestrutivo. Entretanto, o paciente não percebeu assim. Achou que o psicanalista, este sim, estava lhe incitando o medo e quase o levando à loucura. Por isto saiu de lá e nunca mais voltou.
Por sorte, encontraria depois outro profissional que pôde ajudá-lo e promover mudanças em sua vida. Este último limitou-se a ouvi-lo primeiramente, sem fazer comentários, até o momento em que avaliou corretamente ser possível fazê-lo.
Cada paciente tem a sua história que precisa ser profundamente respeitada, bem como seu tempo para poder ouvir o que acreditamos ser necessário lhe dizer.
Para nós profissionais que lidamos com a psique humana, ou como dizia Jung, com a alma, como é difícil estabelecer o que o outro é capaz de ouvir e de entender; até quanto podemos lhe informar sobre o que estamos percebendo.
Até onde o que lhe dissermos pode parecer censura e, ao invés de ajudarmos a pessoa, sem querer o assustamos e a empurramos para longe? Até que ponto todos nós distorcemos o que é dito e o que é entendido?
Ouço sempre pessoas dizendo: “Mas seu analista falou isto?” Ou “seu analista não lhe alertou sobre isto? Não é possível!” Quando ouço estas questões sempre fico me perguntando o que realmente foi falado ou como o outro entendeu o que foi falado em uma sessão psicoterápica. Ou ainda porque não foi falado. Há tantas respostas para estas perguntas!
Não são tão óbvias como pensamos.Temos que continuar sempre atentos ao paciente, procurando percebê-lo e entendê-lo sem crítica ou reprovação, proporcionando oportunidades para que se conheça melhor e lide de maneira mais adequada com seus conflitos.
Agora, sobre o que ele vai falar de nós para os outros e como vai pensar e reagir a repeito do que dissemos, infelizmente não temos controle.
É o risco que corremos e que contradiz a velha máxima de que falar é fácil. Na verdade, falar às vezes é bem difícil!
acho que a palavra-chave, tanto para o analista quanto para o analisado, é tempo. tempo para o analisado falar, falar e falar.
ResponderExcluirfalar até se exaurir.
tempo para o analista ouvir, ouvir, até entender o que está sendo dito - sem pré-julgamentos, sem conceitos pré-concebidos.a acho que, que houvesse TEMPO, no caso específico do paciente do artigo, o analisado até teria aceitado a preocupaçáo do analista.]e e não teria saído correndo do consultório.
como tu mesma escreveste, "cada paciente tem sua história". e cada história é uma vida.
se houver ruído nessa conexão, nem o analista nem o analisado conseguirão estabelecer nada. nem confiança.