terça-feira, 12 de abril de 2011

Ouvir ou falar: o que é mais difícil?

Um trabalho apresentado por um psicanalista brasileiro em Paris me chamou atenção a respeito da importância do que o terapeuta fala para seu cliente. O psicanalista atendeu um homem de 30 e poucos anos que era bem-sucedido em vida profissional, mas não estava satisfeito com sua vida afetiva.

Sentia-se muito solitário embora vivesse cercado de pessoas. O rapaz definia seu comportamento sexual como “anormal”. Ele tinha diversas relações homossexuais num mesmo dia e seu único prazer era o de praticar sexo oral com os homens que encontrava.

Buscava seus parceiros sexuais nos lugares mais perigosos, muitas vezes em postos de gasolinas, canteiros de obras, e lugares afastados da cidade, expondo-se a grandes riscos constantemente. Nunca se encontrava novamente com o mesmo parceiro depois da primeira vez, não tinha a menor lembrança de seus rostos, apenas de seus órgãos genitais.

Antes de começar a terapia com este analista, o rapaz havia tentado outra com um analista diferente do qual saiu apavorado. Ao narrar sua vida sexual, para seu primeiro analista este lhe alertou sobre o perigo de contrair o vírus HIV.

O psicanalista disse apenas uma frase: que o paciente deveria se prevenir contra a Aids. Isto foi suficiente para ele sair lá extremamente angustiado, pois ele se recusava terminantemente a pensar sobre este assunto. Considerou que o analista tentara jogá-lo no fundo de um abismo, ao lhe falar de uma coisa tão desesperadora que quase o levou a um colapso psíquico.

Vamos analisar, rapidamente, a postura deste profissional. Ao perceber os inúmeros riscos que o rapaz estava correndo com suas atitudes, o analista tentou alertá-lo sobre seu comportamento altamente autodestrutivo. Entretanto, o paciente não percebeu assim. Achou que o psicanalista, este sim, estava lhe incitando o medo e quase o levando à loucura. Por isto saiu de lá e nunca mais voltou.

Por sorte, encontraria depois outro profissional que pôde ajudá-lo e promover mudanças em sua vida. Este último limitou-se a ouvi-lo primeiramente, sem fazer comentários, até o momento em que avaliou corretamente ser possível fazê-lo. 

Cada paciente tem a sua história que precisa ser profundamente respeitada, bem como seu tempo para poder ouvir o que acreditamos ser necessário lhe dizer.

Para nós profissionais que lidamos com a psique humana, ou como dizia Jung, com a alma, como é difícil estabelecer o que o outro é capaz de ouvir e de entender; até quanto podemos lhe informar sobre o que estamos percebendo.

Até onde o que lhe dissermos pode parecer censura e, ao invés de ajudarmos a pessoa, sem querer o assustamos e a empurramos para longe? Até que ponto todos nós distorcemos o que é dito e o que é entendido?

Ouço sempre pessoas dizendo: “Mas seu analista falou isto?” Ou “seu analista não lhe alertou sobre isto? Não é possível!” Quando ouço estas questões sempre fico me perguntando o que realmente foi falado ou como o outro entendeu o que foi falado em uma sessão psicoterápica. Ou ainda porque não foi falado. Há tantas respostas para estas perguntas!

Não são tão óbvias como pensamos.Temos que continuar sempre atentos ao paciente, procurando percebê-lo e entendê-lo sem crítica ou reprovação, proporcionando oportunidades para que se conheça melhor e lide de maneira mais adequada com seus conflitos.

Agora, sobre o que ele vai falar de nós para os outros e como vai pensar e reagir a repeito do que dissemos, infelizmente não temos controle.  

É o risco que corremos e que contradiz a velha máxima de que falar é fácil. Na verdade, falar às vezes é bem difícil!

sábado, 2 de abril de 2011

Cinema e Psicanálise, uma abordagem criativa da 7a. arte

Não é de hoje que o cinema é um campo fértil para a análise psicológica. Ele é uma vitrine das paixões humanas, como todas as artes, mas com uma carga ainda mais emocional, pois une quase todos os sentidos e nos envolve sem que percebamos onde nos toca.
Thaïs, psicanalista de orientação lacaniana, fez uma interessante leitura psicológica do filme francês Nossas Inquietudes, da diretora Judith Du Pasquier, que transcrevo abaixo.
Leiam e digam o que acham, abraços
Daina


Ficha Técnica
:
Filme: Nossas Inquietudes
Direção: Judith Du Pasquier
Produção: Arnaud de Mazemat
Assistente de produção: Héléna Thuillier
França, 2003 - 55 minutos
Coprodução: Abacaris Films, Arte France
Menção especial: 'Testemunhos' XXVII e Festival de Lorquin, 2003

Nossas Inquietudes

*Por Thaïs Machado de Moraes Correia

Evelyne chega ao término da sua análise? Ela tem um nível de elaboração que lhe permite falar sobre toda a sua experiência, eliminando o que é dispensável, descartável - um resto - sem perder de vista o essencial. Ela fala sobre o primeiro encontro com um analista, que não avançou da primeira vez ; em seguida sobre a sua transferência com o segundo analista, que para ela encarnava, na transferência, o equilíbrio, a calma, a dádiva. Também traz a repetição, a necessidade da repetição, para assim se dar conta de que a própria análise era quem trazia “a coisa”, das ding. “Talvez fosse preciso fazer a coisa aparecer de forma repetitiva e depois... é o que me resta por que eu lhe digo.” Não é mais a coisa, é o resto da coisa, o que a palavra reduz dessa coisa. O que a faz deixar enterrados os cadáveres que apareciam em meio às ondas que a invadiam é uma intervenção do analista. Ele a faz perceber que já é hora de se desvencilhar disso, ao invés de fazer disso um estilo de vida, um orgulho; desautorizando assim seu sofrimento. Podemos dizer que ele localiza e barra o gozo em que ela vivia mergulhada. Finalmente ela fala sobre a pulsão, uma força de morte que a arrastava desde o início e uma escolha pela vida que vai ocorrendo, substituindo os seus sonhos e pesadelos terríveis com cadáveres pelos sonhos com flores. A sua travessia ela compara com “atravessar Calcutá”. “Atravessar o horror, mas, uma vez atravessado... é só.” Se antes a análise caminhava nesse sentido, da travessia da fantasia fundamental, hoje há identificação ao sintoma, e ao final, uma invenção: Sinthôme.
Léandre procura um analista por que precisa fazer o luto do pai. Depois de 27 anos de coisas não ditas ele procura o analista, mas falta às sessões, voluntária ou involuntariamente, até se dar conta que ele faz isso por que se negligencia e num determinado momento ele não quer mais ficar nessa posição. Fala sobre a passagem para o divã, que marca essa mudança, e um não saber “onde colocar os pés”. É bem isso o que ocorre na passagem ao divã: perdemos um pouco o chão... Alguns não sabem o que fazer com as mãos, ou perdem o chão, ou perdem o olhar do analista. É um corte na relação com a imagem do outro. Muitas vezes não sabemos o que fazer com esse corte. Na primeira clínica, uma análise revelava o passado; hoje, inventa o futuro.
Agnès faz um doloroso descolamento do irmão autista ou deficiente. Ela ‘desmistifica’ ao longo da análise a idéia de que esta leva a um conhecimento de si mesma. Aliás não só Agnès, mas muitos são os que
pensam que a análise serve para alguém se conhecer melhor...Assim ela não evita o impossível e fica mais aberta às surpresas. Ela deixa de ser a que iria cuidar do irmão - um dito materno - para cuidar de sua própria vida. Assim pode ver o que a história do irmão tem a ver com a dela, deparando-se com a sua falta-a-ser. Na sua condição de parlêtre, enfrenta o risco e inventa novas saídas.
Émilie acha que nunca irá passar ao divã. Ela marca uma retificação da sua posição subjetiva ao sair da queixa, da posição de vítima para se implicar na análise. Isso ocorre através de uma pontuação do analista que a faz sair da posição de “doente” para a de analisanda. Numa sessão em que fala sobre a sua feminilidade o analista diz que, na próxima, ela poderia “se deitar”, se assim o quisesse. Pode vir a acontecer uma entrada em análise ou não. Análise mais que interpretação (primeira clínica) é responsabilização (segunda clínica) e é esse o caminho que Émilie poderá percorrer se assim o desejar. A clínica caminha para fazer ressoar e não para a compreensão. Será que Émilie captará essas ressonâncias, ou ficará presa ao registro do entendimento?
Gérard tinha muitos preconceitos com relação à psicanálise, principalmente com relação ao pagamento. Ele sabe depois que há uma falsa idéia de que não se faz análise se não se tem dinheiro. Qual então o valor do dinheiro numa análise, já que há de se pagar o preço? Ele havia parado de trabalhar, achava que não podia, pois os seus sintomas eram bem graves. O analista o acolheu, mas depois o fez pagar, voltar a trabalhar para pagar as sessões. Viver é contrair dívida e há um dom impagável, que é o da vida. Gérard avança na análise, pois ele realmente consente com a análise, consente em falar, consente com o inconsciente, diz: “E eu só tinha uma pressa: era a quarta-feira seguinte... e minha vida era a quarta-feira seguinte. Faz sofrer, mas, é bastante engraçado mesmo assim.” No lugar da verdade, encontra uma certeza.
Didier tinha problemas para assumir a homossexualidade. Isso o fazia ‘matutar’ e não falar, o que lhe trazia angústia e a sensação de aniquilamento. Entretanto, isso lhe servia de mote para a sessão seguinte e assim ele começa a falar o que queria evitar. “A análise é um negócio impensável”, diz ele. “(...) pode se tecer um laço amoroso entre um cara que ouve você e você que se deita, que se abandona sobre um divã... (...) É como se nessa experiência amorosa, a gente conseguisse captar aquilo que faz sofrer.” Amor tece dor? Aí está a clínica do real, onde não mais há uma primazia do simbólico, mas traz conseqüências na vida de um sujeito. Podemos então dizer que há um homem aí pronto a todas as circunstâncias.
Enfim, Judith Du Pasquier conseguiu, ela também, reduzir, decantar, cortar, extrair o horror de Calcutá do seu filme, transmitindo, quase com sofisticação, através dos detalhes, os ‘pequenos grandes ganhos’ que podemos obter numa análise, numa travessia aonde não se chega a nenhum Shangri-la. Se, como afirma Forbes, “a felicidade não é bem que se mereça”, só podemos bordejá-la no acaso, ou tocá-la bem de leve.
As contribuições da psicanálise para a produção cinematográfica são inúmeras, e a imagem do psicanalista em muitos filmes americanos é muito distorcida. Ao vermos esse filme, nossas inquietutes se sobrepõem, pois cada um reviu ou viu pela primeira vez, o que sai da boca, de forma singular, daquele que está em análise e que este não é um discurso como os outros. Isso porque esse filme recolhe as palavras dos sujeitos em análise; sem adotar ou impor nenhum ‘modelo’ de analista, como é comum nos filmes que usam isto como um clichê. Nisso reside a riqueza dessa produção cinematográfica: a aposta de que a palavra na psicanálise, traz sempre a dimensão da surpresa, onde cada um faz a ‘montagem’ de suas próprias ficções.
Nessa película vemos claramente nos relatos, recortes, fragmentos de análises, a bizarrice de cada um, a maluquice, que torna interessante o gozo que se particulariza para então se coletivizar. Não há saúde
sem loucura. Miller nos lembra em “A salvação pelos dejetos”, que saímos finalmente do campo do normal e do patológico para entrar no campo das paixões.
Cito Miller:
“Com essa fórmula “a salvação pelos dejetos” ele define o surrealismo, a via escolhida pelo surrealismo. E digo “a via” no sentido do Tao. É o caminho. É também a maneira de fazer, de se colocar, de se deslizar no mundo, no discurso, no curso do mundo que é discurso. E me parece muito justo dizer que André Breton prometeu a salvação pela via dos dejetos. Mas é ainda mais justo dizê-lo de Freud. Aliás, a promessa surrealista nunca teria sido proferida se não tivesse havido antes a psicanálise, a descoberta freudiana que foi, como se sabe, primeiramente, a desses dejetos da vida psíquica, os dejetos do mental que são o sonho, o lapso, o ato-falho e mais além, o sintoma. Mas também a descoberta de que levando-os a sério, e mais ainda, estando atento a eles, o sujeito tem chance de se salvar”.
Como aqui estamos assistindo a Psicanálise sendo revisitada por cineastas, e onde o cinema é considerada a sétima arte; podemos ao ver um filme singular como este, feito de bricolagens de discurso, de pequeninos testemunhos, que foi preciso, nos diz Miller, que psicanálise aparecesse com sua promessa de salvar pelos dejetos para que se percebesse que, até então só se havia procurado a salvação pelos ideais. Esse filme colabora para que nós possamos também desidealizar a psicanálise.
Não mais temos a sublimação da era vitoriana e a sua efetividade naquela época. De um Lacan que dizia que a única satisfação permitida pela promessa analítica seria a sublimação; hoje advém o gozo, a arte como intérprete, onde a arte (o cinema aqui como veículo) se apresenta aí sem transposição, sem reparos, sem véu. Falamos com freqüência que arte contemporânea se encontra sem véu; onde o objeto de expõe sozinho. Do museu aos shoppings, nos resta uma aposta em dar uma virada e ainda causar alguma surpresa, ali onde pouco há o que inventar, onde as obras hoje não devem poluir o ambiente nem denegrir o espaço público...
A psicanálise tem muito a contribuir, sem precisar de um discurso moralista e conservador, mas adota outro discurso, revolucionário, para cada época. Então estamos diante de uma renovação ética, de um período marcado por profundas mudanças que nem temos tempo de absorver. Não teríamos como diz Baudelaire, que ir buscar 'algo novo' ao irmos em direção ao desconhecido, ao não-sabido? Freud descobriu que esse 'algo novo' no desconhecido é a repetição. É, portanto, a presença em cada um de nós de algo velho, operativo, mais poderoso que o novo. Em Freud, o velho e o novo se confluem, pois seu estilo é o de mesclar elementos atuais e antigos. O cinema faz isso de forma magnífica. Afinal esse filme vem legitimar a presença da Psicanálise no mundo.
Os sintomas mudaram e sempre mudam porque o homem muda a configuração de mundo também; no entanto, há sempre algo que diz algo, uma mensagem a ler. O sintoma não tem só significação decifrável, mas relação com o inconsciente real. Por isso, resistem ao dizer. E é exatamente por essa razão, que se repetem. Hoje não mais a vergonha de falar em público e sim a hiperexposição sem limites nos facebooks, nos orkuts, e literalmente neste filme onde a psicanálise vai ao cinema. A psicanálise aqui está no divã.
Após Freud, sempre houveram encontros arriscados entre preocupações estéticas e abordagens psicanalíticas de todos os matizes e para todos os gostos. Sublimação de excelência foi encontrada por Freud em Leonardo da Vinci, que criou uma escrita a partir do desenho e que também na solidão de seu saber sublimou sua vida sexual. Freud definiu por sublimação a transformação de nossas piores inclinações
em alvos socialmente aceitos; ou seja, esse seria um dos destinos das pulsões vis do homem diante das restrições culturais. Há outro destino possível das pulsões: as formações sintomáticas, que passaram por um recalcamento e retornam. Sintoma e sublimação então se apresentam como modos alternativos de satisfação. O sintoma traz sofrimento e a sublimação poderia ser pensada como uma saída mais feliz; pois não paga o preço do recalque. Mas verifica-se que a sublimação não é sem sofrimento, como testemunham o relato de artistas, escritores e cineastas. Segundo Freud, a sublimação da libido se não acompanhada por outras fontes diretas da satisfação sexual, gera um sofrimento, pois satisfaz aos impulsos do supereu. Nesse sentido, a sublimação não é uma saída feliz. Mas lembremos que a vontade por demais humana de ser feliz e assim permanecer é também desiludida por Freud, pois ele nos lembra que não entrou nos planos da criação que o homem fosse feliz! No entanto, a sublimação pode fazer laço social, quando associada à capacidade de invenção a partir do que há de mais íntimo e singular nas manifestações artísticas. De fato, os sujeitos quando sozinhos sublimam o tempo todo; vêem a beleza, o bem, o verdadeiro, para não fazerem outra coisa...
Sublimação tem sua origem na alquimia, que seria a transformação do vil metal em ouro. Na química, significa a passagem direta do estado sólido para o gasoso, sem passar pelo estado líquido. E no plano moral, significa a purificação da alma ou elevação desta. O amor cortês é o paradigma posto que o objeto de arte revela uma inquietante estranheza. Não é então como ideal que a arte aborda o objeto pulsional. Tanto é que não sabemos mais qual a diferença, a barreira entre o objeto de arte e o objeto comum, entre dentro e fora, entre objetividade e subjetividade – antes tão bem demarcados e hoje apenas bordas, litorais.
A sublimação para Lacan é o que eleva o objeto ao estatuto da Coisa (Das Ding, para Freud). Lacan situa a Coisa como sendo a partir da qual o homem cria todas as formas que são do registro da sublimação. Ela será, sempre, representada pelo vazio, pois em toda forma de sublimação, o vazio será determinante. Através de inúmeros objetos a arte organiza o vazio, a partir do impossível de imaginar e de pensar.
A arte para Lacan é um artifício, jogando aí com a homofonia entre arte, invenção, artifício como ficção. Lacan localiza a arte em um avesso da Psicanálise, o saber fazer do artista. Nem todo mundo é artista, nem todo mundo é poeta. Então, os sujeitos neuróticos querem ser liberados do sintoma porque não conseguem fazer dele um sinthoma, como Joyce fez com a sua escrita. Aliás, é Lacan que inventa esse nome de sinthoma, no seminário 23 para substituir o conceito de sublimação. A noção de sinthoma que Lacan elabora a partir de Joyce, nos permite repensar as relações entre Psicanálise e obra-de-arte, entre Psicanálise e cinema, fora do circuito da sublimação, dominante desde Freud.
Hoje, a sociedade vive de informações on-line e toda a população tem acesso à mesma mídia, embora haja um grupo socialmente estabelecido e uma população marginal, excluída. O homem, a partir de qualquer lugar, pode considerar-se no centro do mundo. A informação profusa e difundida permite ao homem ver o mundo que quer todo voltado para si. Ao eliminarmos a limitação do espaço, passamos a viver em função do tempo. Isto implica perdermos a distância. Bombardeado de informação, o homem ficou sem possibilidade de introspecção ou contemplação. Não há mais silêncio, não há “ocasião de degustar informações consigo mesmo”. A dignidade, desse ponto de vista, é a de se colocar protegido do mundo da informação, dos modismos, do marketing e da criação de desejos artificiais...
Do desejo, que é finito, ao gozo em excesso isto não significa conformismo. A pergunta de hoje seria: como conectar sua maluquice ao mundo? Vamos buscar isso, esse excesso, nas instituições, nas universidades, na literatura, vendo um bom filme como esse... Esse filme é assim, meio maluquinho,
porque estamos tomados pela maluquice... Se tudo é apenas sonho, todo mundo é louco, ou seja, delirante!
Aqui é bom lembrar-se do Encontro Americano da EBP que acontecerá em junho no Rio, cujo tema é: “ a saúde para todos não sem a loucura de cada um”.

Thaïs Machado de Moraes Correia é psicóloga e psicanalista de orientação lacaniana. É também professora da Universidade Federal do Maranhão. Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise, DG-MA.

* Este texto é uma contribuição da querida prima e excelente profissional Thaïs, cujo trabalho de maior sucesso e amor é sua filha, a artista plástica Marina  

quinta-feira, 31 de março de 2011

Educar é amar, diz Norma

Publico a seguir a contribuição da educadora Maria Norma Salles para este blog. É a primeira de várias com temas ligados à Educação. Trata-se de uma matéria publicada na revista “Amae Educando”. Ela nasceu em Parnaíba (PI) e reside em Belo Horizonte (MG), onde se casou, tem filho e exerce suas atividades profissionais.

Norma Salles é pedagoga, Arte-educadora, consultora de Arte, contadora de histórias, diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.
 
Leia o artigo e dê sua opinião ou contribuição.
Abraços,
Daina



Maria Norma Sales: Pedagoga, Arte-educadora, Consultora de Arte, Contadora de Histórias diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.

Baú de Memórias

* por Maria Norma Salles

E se demais a solidão, eu pedia a minha avó uma história. Ela me assentava sobre os seus joelhos – olhava bem lá no fundo da paisagem e de lá arrancava uma. Às vezes, eu nem escutava. Sua presença era a minha leitura. Seu corpo perto do meu, sua voz quente no meu ouvido, sua mão alisando o meu cabelo era tudo o que me curava. A história era apenas um pretexto. Sei que nessa hora de “porquês” eu me fazia sua leitura e o nosso amor era a nossa história.
Bartolomeu Campos Queirós – fragmento

Não nascemos num mundo vazio de histórias. Desde os tempos remotos o ser humano revelou-se desejoso de conhecer a origem de todas as coisas: de onde viemos, por que alguns animais rastejam, outros voam, o por quê da magia das plantas que curam, o significado dos objetos sagrados, enfim, conhecer a si próprio e o mundo que o cerca. Nesta busca, a humanidade criou formas de comunicar-se: usou desenhos, gestos, para, finalmente, chegar à palavra. Palavra com a qual se comunicava com o outro.
A partir dessas manifestações comunicativas o ser humano foi criando o seu acervo de experiências de vida: suas lendas, suas danças e canções, etc. Logo, se fez necessário contar a alguém sobre os seus dias: o que fez, o que sentiu, o que viu, ouviu, imaginou e cheirou. Estava estabelecida a relação contar e ouvir histórias.
Desde então, as pessoas se emocionam, sentem-se acolhidas, semelhantes e, ao mesmo tempo únicas, pois suas histórias estão ali, na história do outro, mesmo que tenham acontecido em um outro tempo, em um outro lugar, entrelaçando-se numa verdadeira teia de relações humanas.
O ser humano trás em si um verdadeiro baú de histórias. São histórias que a cada momento se transformam em narrativas únicas na pele de vários personagens: filha, neta, irmã, mãe, esposa, amante, amiga, inimiga. Esse baú precisa ser aberto e revisitado num exercício de memória onde o futuro se desenhe com teias presentes no passado.
No conto da tradição oral africana, “O Baú das Histórias” nos deparamos com um pequeno homem que trouxe os contos do mundo dos deuses para dividi-los com os humanos. O baú da história da humanidade não poderia ficar aprisionado no mundo dos deuses. E, foi por essa razão que o homenzinho-aranha –Ananse- aceitou o desafio proposto pelo deus Nyame, guardião do baú, senhor, até então, de todas elas. O pequeno Ananse enfrentou tigres, marimbondos e seres encantados, teceu e desteceu teias da terra ao céu, num ir e vir até que, depois de uma longa jornada, cheia de armadilhas e perigos, tomou posse do seu baú. Trouxe-o para sua aldeia e, ao abri-lo, as histórias se espalharam pelos quatro cantos do mundo acendendo a fogueira na mente e no coração de cada um, aquecendo as relações de afetividade, nos mostrando a importância do sonho, da fantasia, nos ensinando que através da sabedoria dos livros cada um pode mudar o rumo da sua história reforçando, dessa forma, a importância dos contos para a humanidade.
O ser humano é, por natureza, um ser desejante sempre em busca do que falta, daquilo que satisfaça os seus sentidos. Nessa busca ele ama, sofre, enfrenta desafios, vence, perde, construindo suas memórias, quentes, antigas, tristes, engraçadas, memórias que valem ouro, como nos conta a história de “Guilherme Augusto Araújo Fernandes – Ed. Brinque Book: um menino, ainda pequeno, que vai ajudar sua velha amiga, Dona Antônia Maria Cordeiro Diniz, a encontrar as memórias que havia perdido.
Hoje, o desejo das pessoas em ouvir e contar sua própria história em volta da mesa da cozinha, nas calçadas ou contada pela babá na hora de dormir, há muito saiu de cena. Já não nos encontramos tanto com o outro para esta troca de experiências. Estamos todos “muito ocupados” e não temos tempo a perder com essas “bobagens”. A televisão, o computador, o celular e tantos outros aparelhos de última geração preenchem os vazios que encontramos nesse turbilhão de afazeres.
Se parássemos para “trocar” nossas histórias, menos livros de auto-ajuda estariam nas prateleiras das livrarias e nas estantes de nossas casas. Esse tipo de literatura é muito diferente de ouvirmos a experiência que alguém vivenciou. Ao trocarmos nossas histórias, ora contando, ora ouvindo, nos damos conta de que cada pessoa é um conto vivo, deixamos de ser solitários, podendo, assim, participar deste grande banquete e celebrar a vida, com todas suas implicações, de maneira mais saudável.
O nosso crescimento interior vem desse contato de experiências diretas com o outro, no dia-a-dia. Através de nossas experiências diárias vamos abrindo caminhos novos em busca do mais profundo de nosso ser.
Para Carl Jung “A alma humana não se conhece apenas dentro de um consultório do analista, mas na experiência da vida tal como é vivida com todas suas implicações. Toda experiência interior tem que ser mediada pela relação com o outro. Nunca alguém se individualiza sozinho, e a finalidade da individuação não é ficar só, pelo contrário, é estar em relação, cada um a seu modo”.
O que falta a maioria de nós é remexer nesse baú de memórias. É tecer com o outro uma colcha de histórias, tecer relações nessa teia que nos liga novamente ao humano.
Nessa busca de trazer à tona o resgate de nossas histórias a Consultoria de Arte Conta e enCanta oferece a oficina “Tecendo fios da Memória” –
Objetivos:
  • Remexer o “baú das histórias” de cada participante.
  • Estimular a memória a partir dos sentidos: olfato, tato, paladar, visão e audição.
  • Costurar as histórias de cada um, entrelaçando experiências de vida.
  • Tecer uma colcha de retalhos numa metáfora da construção da própria vida.
Atividades
  • Hora do Conto: Contar a história “Guilherme Augusto Araújo Fernandes” Ed. Brinque Book
  • Montagem do baú de memórias: cada participante trará de casa um baú contendo objetos, fotos, cartas, etc, que representem memórias quentes, antigas, tristes, alegres, que valem ouro. Divididos em pequenos grupos, apresentam o seu baú de memórias e em seguida elegem um para contar, ao grupão, uma das memórias.
  • Memória olfativa: A facilitadora levará para a sala, vários potes contendo produtos cheirosos: sabonete, pó de café, cravo, canela, erva-doce, hortelã, chocolate, etc. Cada participante, de olhos fechados, sentirá o cheiro que, automaticamente, o remeterá a uma história. Em seguida, contará para o grupo a história do cheiro.
  • Memória Visual: Observar um velho casarão e imaginar histórias que poderiam ter acontecido ali.
  • Memória Auditiva: Uma música que remeta a um tempo vivido.
  • Colcha de Retalhos: A facilitadora pedirá a cada participante, um retalho de “americano cru” 30X30 cm, tinta AGRIPUFF, própria para tecido e pincéis. Orientar o grupo no sentido de que cada um pinte, ali, um “retrato” de sua vida revelando uma memória marcante. Após pintar os retalhos, o grupo irá tecer uma colcha de histórias, numa metáfora à construção da própria vida: “a união das partes formando o todo” guardando, no entanto, a originalidade de cada um. Para prolongar o prazer de revisitar o “Baú das Memórias”, sugerir aos participantes que assistam ao filme “Colcha de Retalhos”.
  • Sugestão: Sortear a colcha entre os participantes ou rifá-la revertendo o dinheiro a um asilo.
Fica aqui nosso convite para que cada uma de vocês saboreie este prato que serviremos e, a partir do seu olfato, do seu paladar, seu tato e sensibilidades outras deguste e digira o que lhe for servido conforme seu metabolismo se processar. Sirvam-se. Cada prato nos presenteia com aprendizagens pelo simples fato de saboreá-los. E por que não dizer que depois desta aventura... seremos felizes para sempre!!!
Bibliografia.
-JUNG, G. Carl. O Homem e seus Símbolos – Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira
-KEEN, Sam. VALLEY-FOX. A Jornada Mítica de Cada Um São Paulo, Editora Cultrix, 1973/1989
-VON FRANZ, Marie-Louise - A individuação nos contos de fada - São Paulo, Paulus, 1984
-REMEN, Rachel Naomi. Histórias que curam: conversas sábias ao pé do fogãoSão Paulo: Ed. Ágora,
Maria Norma Sales: Pedagoga, Arte-educadora, Consultora de Arte, Contadora de Histórias diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.

* Este texto é uma contribuição de uma grande amiga, desde a infância, Norma, maravilhosa Contadora de Histórias que todos encanta com seu belísssimo trabalho.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Papopsy pergunta: queremos ser amados, mas estamos prontos para isso?


Leio na Internet muitos conselhos e parábolas sobre relacionamentos. No entanto, um aspecto costuma não ser abordado. Como devemos tratar as pessoas que nos querem bem e tudo fazem para ter nosso afeto e a nossa atenção? Será que as menosprezamos, que as tratamos bem? Ou as manipulamos para obter ainda mais carinho e atenção?

Para ilustrar essa pergunta, contarei uma experiência que tive em Brasília. Como profissional de Psicologia tenho atuado em várias atividades, tanto na área clinica como na organizacional, além de ser voluntária em trabalhos na comunidade. Em um deles, atendi crianças e adolescentes carentes.

Era um abrigo em que tive a oportunidade de trabalhar em um processo de adoção de dois irmãos, um menino de sete anos e sua irmã de seis, por um casal estrangeiro. Estas crianças tinham chegado à instituição muito novas. O menino, com pouco mais de um ano e a menina tinha meses.

O abrigo é constituído por casas-lares onde funcionárias contratadas exercem o papel de “mães sociais”. Elas cuidam das várias crianças sob sua responsabilidade, constituindo uma espécie de núcleo familiar.

O primeiro desafio foi o de atenuar o forte vinculo que a mãe social e seu marido tinham conseguido construir com essas crianças em especial para abrir espaço à entrada de novos pais. A aceitação da nova família – isto é, do casal de estrangeiros –  aconteceu de forma tranqüila, após algumas sessões de psicoterapia.

Ao final de dois meses, os dois irmãos já estavam até ansiosos para conhecer os novos pais e, quando o dia chegou, o encontro entre eles está entre as cenas mais emocionantes da minha vida.

A segunda etapa do trabalho foi fazer a integração entre pais e filhos, inclusive porque eles falavam línguas diferentes. O casal estrangeiro ia visitar as crianças todos os dias e sempre levava presentes. Também saíamos juntos, os cinco, para que os futuros pais pudessem interagir melhor com os irmãos sem a interferência dos outros meninos do abrigo, sempre muito curiosos.

As duas crianças estavam superfelizes, recebendo muito carinho e muitos presentes. Era bom demais!

No entanto, um dia o casal chegou e me disse estar muito preocupado. Será que aquelas crianças eram inafetivas? Será que não conseguiam abraçar e beijar as pessoas pelo fato de sempre terem vivido em um abrigo? Será que realmente queriam ir embora com aquele casal?  Será que gostavam deles mesmo?, pois nunca os abraçavam e beijavam.

Fui então fazer uma sessão psicoterápica com os dois e ver o que estava acontecendo. Brincamos, conversamos, nos abraçamos, trocamos afetos, tudo muito bem. Eles me revelaram que estavam gostando muito dos novos pais, já os chamavam inclusive de papai e mamãe.

Então finalmente perguntei: Porque vocês então não abraçam e beijam o papai e mamãe? Qual não foi a minha surpresa quando o garotinho, com um olhar sapeca e um riso maroto, respondeu: “Tia, nós estamos dando um nó na cabeça deles!”

Pois não é que os danadinhos, aquelas criancinhas carentes e frágeis de um abrigo, estavam conseguindo manipular direitinho o casal para ganhar mais presentes e afetos? Estou falando de crianças que nunca tinham saído de um abrigo, não conheciam computador, internet etc.

Seu nível de informação era baixíssimo, mas, mesmo assim, já sabiam manipular os sentimentos dos adultos. E com consciência do que estavam fazendo. Não nos enganemos! Criança só é pequena, mas não é boba não. Não devemos nem podemos subestimar qualquer pessoa.

Bem, só para vocês saberem, os pais foram devidamente orientados e a adoção foi um sucesso. Após mais de três meses no Brasil, por exigências legais, os quatro partiram e até hoje mantenho contato com eles.

Fazendo um paralelo com nossa vida afetiva na idade adulta, deixo algumas perguntas: será que sabemos receber amor e respeitar quem realmente nos ama? Ou achamos que as pessoas que nos querem bem são bobas e manipuláveis? Será que as subestimamos por gostarem de nós?

Ou, na realidade, não acreditamos ser suficientemente bons para recebermos o amor de alguém que consideramos admirável? Estamos preparados para isso?

Deixo estas questões para reflexão e fico aguardo as respostas de vocês, pois este blog é um espaço em que pretendo não apenas escrever, mas também ouvir, que é a sagrada missão dos psicólogos.

terça-feira, 29 de março de 2011

“Dá para ser feliz”

Para a psicóloga junguiana Daina Machado*, a psicoterapia pode ajudar as pessoas a enfrentarem seus traumas e encarar os desafios da vida de forma mais eficiente
Cada ser humano tem um destino ou podemos mudar nossa vida? As questões transcendentais do destino permanecem no campo das religiões e do esoterismo. Já na psicoterapia, é possível enfrentar traumas e criar comportamentos mais adequados aos desafios da vida. As pessoas podem mudar e se sentir mais felizes.
Por que é tão difícil ter relações afetivas estáveis hoje em dia? Projetamos na outra pessoa nossos desejos e necessidades e ficamos frustrados. O outro é diferente do que sonhamos, tem sua própria personalidade. Precisamos descobrir o prazer de ver o parceiro como ele é - e não como gostaríamos que fosse.
E os problemas de relacionamento no trabalho? Vivemos numa sociedade competitiva, que subestima as relações humanas. Priorizamos a meta, esquecendo de que precisamos de cooperação para chegar até ela. O ideal é que todos ganhem, mesmo que as vitórias não sejam iguais para todos. A competição é estimulante para a personalidade. Mas não pode ser predatória, pois leva ao estresse e a doenças emocionais. Uma psicoterapia qualificada ajuda o indivíduo a se relacionar melhor no trabalho, com o parceiro e com a família.
Foto: Divulgação

·        Daina Diniz Machado CRP 629
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