* por Maria Norma Salles
E se demais a solidão, eu pedia a minha avó uma história. Ela me assentava sobre os seus joelhos – olhava bem lá no fundo da paisagem e de lá arrancava uma. Às vezes, eu nem escutava. Sua presença era a minha leitura. Seu corpo perto do meu, sua voz quente no meu ouvido, sua mão alisando o meu cabelo era tudo o que me curava. A história era apenas um pretexto. Sei que nessa hora de “porquês” eu me fazia sua leitura e o nosso amor era a nossa história.
Bartolomeu Campos Queirós – fragmento
Não nascemos num mundo vazio de histórias. Desde os tempos remotos o ser humano revelou-se desejoso de conhecer a origem de todas as coisas: de onde viemos, por que alguns animais rastejam, outros voam, o por quê da magia das plantas que curam, o significado dos objetos sagrados, enfim, conhecer a si próprio e o mundo que o cerca. Nesta busca, a humanidade criou formas de comunicar-se: usou desenhos, gestos, para, finalmente, chegar à palavra. Palavra com a qual se comunicava com o outro.
A partir dessas manifestações comunicativas o ser humano foi criando o seu acervo de experiências de vida: suas lendas, suas danças e canções, etc. Logo, se fez necessário contar a alguém sobre os seus dias: o que fez, o que sentiu, o que viu, ouviu, imaginou e cheirou. Estava estabelecida a relação contar e ouvir histórias.
Desde então, as pessoas se emocionam, sentem-se acolhidas, semelhantes e, ao mesmo tempo únicas, pois suas histórias estão ali, na história do outro, mesmo que tenham acontecido em um outro tempo, em um outro lugar, entrelaçando-se numa verdadeira teia de relações humanas.
O ser humano trás em si um verdadeiro baú de histórias. São histórias que a cada momento se transformam em narrativas únicas na pele de vários personagens: filha, neta, irmã, mãe, esposa, amante, amiga, inimiga. Esse baú precisa ser aberto e revisitado num exercício de memória onde o futuro se desenhe com teias presentes no passado.
No conto da tradição oral africana, “O Baú das Histórias” nos deparamos com um pequeno homem que trouxe os contos do mundo dos deuses para dividi-los com os humanos. O baú da história da humanidade não poderia ficar aprisionado no mundo dos deuses. E, foi por essa razão que o homenzinho-aranha –Ananse- aceitou o desafio proposto pelo deus Nyame, guardião do baú, senhor, até então, de todas elas. O pequeno Ananse enfrentou tigres, marimbondos e seres encantados, teceu e desteceu teias da terra ao céu, num ir e vir até que, depois de uma longa jornada, cheia de armadilhas e perigos, tomou posse do seu baú. Trouxe-o para sua aldeia e, ao abri-lo, as histórias se espalharam pelos quatro cantos do mundo acendendo a fogueira na mente e no coração de cada um, aquecendo as relações de afetividade, nos mostrando a importância do sonho, da fantasia, nos ensinando que através da sabedoria dos livros cada um pode mudar o rumo da sua história reforçando, dessa forma, a importância dos contos para a humanidade.
O ser humano é, por natureza, um ser desejante sempre em busca do que falta, daquilo que satisfaça os seus sentidos. Nessa busca ele ama, sofre, enfrenta desafios, vence, perde, construindo suas memórias, quentes, antigas, tristes, engraçadas, memórias que valem ouro, como nos conta a história de “Guilherme Augusto Araújo Fernandes – Ed. Brinque Book: um menino, ainda pequeno, que vai ajudar sua velha amiga, Dona Antônia Maria Cordeiro Diniz, a encontrar as memórias que havia perdido.
Hoje, o desejo das pessoas em ouvir e contar sua própria história em volta da mesa da cozinha, nas calçadas ou contada pela babá na hora de dormir, há muito saiu de cena. Já não nos encontramos tanto com o outro para esta troca de experiências. Estamos todos “muito ocupados” e não temos tempo a perder com essas “bobagens”. A televisão, o computador, o celular e tantos outros aparelhos de última geração preenchem os vazios que encontramos nesse turbilhão de afazeres.
Se parássemos para “trocar” nossas histórias, menos livros de auto-ajuda estariam nas prateleiras das livrarias e nas estantes de nossas casas. Esse tipo de literatura é muito diferente de ouvirmos a experiência que alguém vivenciou. Ao trocarmos nossas histórias, ora contando, ora ouvindo, nos damos conta de que cada pessoa é um conto vivo, deixamos de ser solitários, podendo, assim, participar deste grande banquete e celebrar a vida, com todas suas implicações, de maneira mais saudável.
O nosso crescimento interior vem desse contato de experiências diretas com o outro, no dia-a-dia. Através de nossas experiências diárias vamos abrindo caminhos novos em busca do mais profundo de nosso ser.
Para Carl Jung “A alma humana não se conhece apenas dentro de um consultório do analista, mas na experiência da vida tal como é vivida com todas suas implicações. Toda experiência interior tem que ser mediada pela relação com o outro. Nunca alguém se individualiza sozinho, e a finalidade da individuação não é ficar só, pelo contrário, é estar em relação, cada um a seu modo”.
O que falta a maioria de nós é remexer nesse baú de memórias. É tecer com o outro uma colcha de histórias, tecer relações nessa teia que nos liga novamente ao humano.
Nessa busca de trazer à tona o resgate de nossas histórias a Consultoria de Arte Conta e enCanta oferece a oficina “Tecendo fios da Memória” –
Objetivos:
- Remexer o “baú das histórias” de cada participante.
- Estimular a memória a partir dos sentidos: olfato, tato, paladar, visão e audição.
- Costurar as histórias de cada um, entrelaçando experiências de vida.
- Tecer uma colcha de retalhos numa metáfora da construção da própria vida.
Atividades
- Hora do Conto: Contar a história “Guilherme Augusto Araújo Fernandes” Ed. Brinque Book
- Montagem do baú de memórias: cada participante trará de casa um baú contendo objetos, fotos, cartas, etc, que representem memórias quentes, antigas, tristes, alegres, que valem ouro. Divididos em pequenos grupos, apresentam o seu baú de memórias e em seguida elegem um para contar, ao grupão, uma das memórias.
- Memória olfativa: A facilitadora levará para a sala, vários potes contendo produtos cheirosos: sabonete, pó de café, cravo, canela, erva-doce, hortelã, chocolate, etc. Cada participante, de olhos fechados, sentirá o cheiro que, automaticamente, o remeterá a uma história. Em seguida, contará para o grupo a história do cheiro.
- Memória Visual: Observar um velho casarão e imaginar histórias que poderiam ter acontecido ali.
- Memória Auditiva: Uma música que remeta a um tempo vivido.
- Colcha de Retalhos: A facilitadora pedirá a cada participante, um retalho de “americano cru” 30X30 cm, tinta AGRIPUFF, própria para tecido e pincéis. Orientar o grupo no sentido de que cada um pinte, ali, um “retrato” de sua vida revelando uma memória marcante. Após pintar os retalhos, o grupo irá tecer uma colcha de histórias, numa metáfora à construção da própria vida: “a união das partes formando o todo” guardando, no entanto, a originalidade de cada um. Para prolongar o prazer de revisitar o “Baú das Memórias”, sugerir aos participantes que assistam ao filme “Colcha de Retalhos”.
- Sugestão: Sortear a colcha entre os participantes ou rifá-la revertendo o dinheiro a um asilo.
Fica aqui nosso convite para que cada uma de vocês saboreie este prato que serviremos e, a partir do seu olfato, do seu paladar, seu tato e sensibilidades outras deguste e digira o que lhe for servido conforme seu metabolismo se processar. Sirvam-se. Cada prato nos presenteia com aprendizagens pelo simples fato de saboreá-los. E por que não dizer que depois desta aventura... seremos felizes para sempre!!!
Bibliografia.
-JUNG, G. Carl. O Homem e seus Símbolos – Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira
-KEEN, Sam. VALLEY-FOX. A Jornada Mítica de Cada Um São Paulo, Editora Cultrix, 1973/1989
-VON FRANZ, Marie-Louise - A individuação nos contos de fada - São Paulo, Paulus, 1984
-REMEN, Rachel Naomi. Histórias que curam: conversas sábias ao pé do fogão – São Paulo: Ed. Ágora,
Maria Norma Sales: Pedagoga, Arte-educadora, Consultora de Arte, Contadora de Histórias diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.
* Este texto é uma contribuição de uma grande amiga, desde a infância, Norma, maravilhosa Contadora de Histórias que todos encanta com seu belísssimo trabalho.