quinta-feira, 31 de março de 2011

Educar é amar, diz Norma

Publico a seguir a contribuição da educadora Maria Norma Salles para este blog. É a primeira de várias com temas ligados à Educação. Trata-se de uma matéria publicada na revista “Amae Educando”. Ela nasceu em Parnaíba (PI) e reside em Belo Horizonte (MG), onde se casou, tem filho e exerce suas atividades profissionais.

Norma Salles é pedagoga, Arte-educadora, consultora de Arte, contadora de histórias, diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.
 
Leia o artigo e dê sua opinião ou contribuição.
Abraços,
Daina



Maria Norma Sales: Pedagoga, Arte-educadora, Consultora de Arte, Contadora de Histórias diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.

Baú de Memórias

* por Maria Norma Salles

E se demais a solidão, eu pedia a minha avó uma história. Ela me assentava sobre os seus joelhos – olhava bem lá no fundo da paisagem e de lá arrancava uma. Às vezes, eu nem escutava. Sua presença era a minha leitura. Seu corpo perto do meu, sua voz quente no meu ouvido, sua mão alisando o meu cabelo era tudo o que me curava. A história era apenas um pretexto. Sei que nessa hora de “porquês” eu me fazia sua leitura e o nosso amor era a nossa história.
Bartolomeu Campos Queirós – fragmento

Não nascemos num mundo vazio de histórias. Desde os tempos remotos o ser humano revelou-se desejoso de conhecer a origem de todas as coisas: de onde viemos, por que alguns animais rastejam, outros voam, o por quê da magia das plantas que curam, o significado dos objetos sagrados, enfim, conhecer a si próprio e o mundo que o cerca. Nesta busca, a humanidade criou formas de comunicar-se: usou desenhos, gestos, para, finalmente, chegar à palavra. Palavra com a qual se comunicava com o outro.
A partir dessas manifestações comunicativas o ser humano foi criando o seu acervo de experiências de vida: suas lendas, suas danças e canções, etc. Logo, se fez necessário contar a alguém sobre os seus dias: o que fez, o que sentiu, o que viu, ouviu, imaginou e cheirou. Estava estabelecida a relação contar e ouvir histórias.
Desde então, as pessoas se emocionam, sentem-se acolhidas, semelhantes e, ao mesmo tempo únicas, pois suas histórias estão ali, na história do outro, mesmo que tenham acontecido em um outro tempo, em um outro lugar, entrelaçando-se numa verdadeira teia de relações humanas.
O ser humano trás em si um verdadeiro baú de histórias. São histórias que a cada momento se transformam em narrativas únicas na pele de vários personagens: filha, neta, irmã, mãe, esposa, amante, amiga, inimiga. Esse baú precisa ser aberto e revisitado num exercício de memória onde o futuro se desenhe com teias presentes no passado.
No conto da tradição oral africana, “O Baú das Histórias” nos deparamos com um pequeno homem que trouxe os contos do mundo dos deuses para dividi-los com os humanos. O baú da história da humanidade não poderia ficar aprisionado no mundo dos deuses. E, foi por essa razão que o homenzinho-aranha –Ananse- aceitou o desafio proposto pelo deus Nyame, guardião do baú, senhor, até então, de todas elas. O pequeno Ananse enfrentou tigres, marimbondos e seres encantados, teceu e desteceu teias da terra ao céu, num ir e vir até que, depois de uma longa jornada, cheia de armadilhas e perigos, tomou posse do seu baú. Trouxe-o para sua aldeia e, ao abri-lo, as histórias se espalharam pelos quatro cantos do mundo acendendo a fogueira na mente e no coração de cada um, aquecendo as relações de afetividade, nos mostrando a importância do sonho, da fantasia, nos ensinando que através da sabedoria dos livros cada um pode mudar o rumo da sua história reforçando, dessa forma, a importância dos contos para a humanidade.
O ser humano é, por natureza, um ser desejante sempre em busca do que falta, daquilo que satisfaça os seus sentidos. Nessa busca ele ama, sofre, enfrenta desafios, vence, perde, construindo suas memórias, quentes, antigas, tristes, engraçadas, memórias que valem ouro, como nos conta a história de “Guilherme Augusto Araújo Fernandes – Ed. Brinque Book: um menino, ainda pequeno, que vai ajudar sua velha amiga, Dona Antônia Maria Cordeiro Diniz, a encontrar as memórias que havia perdido.
Hoje, o desejo das pessoas em ouvir e contar sua própria história em volta da mesa da cozinha, nas calçadas ou contada pela babá na hora de dormir, há muito saiu de cena. Já não nos encontramos tanto com o outro para esta troca de experiências. Estamos todos “muito ocupados” e não temos tempo a perder com essas “bobagens”. A televisão, o computador, o celular e tantos outros aparelhos de última geração preenchem os vazios que encontramos nesse turbilhão de afazeres.
Se parássemos para “trocar” nossas histórias, menos livros de auto-ajuda estariam nas prateleiras das livrarias e nas estantes de nossas casas. Esse tipo de literatura é muito diferente de ouvirmos a experiência que alguém vivenciou. Ao trocarmos nossas histórias, ora contando, ora ouvindo, nos damos conta de que cada pessoa é um conto vivo, deixamos de ser solitários, podendo, assim, participar deste grande banquete e celebrar a vida, com todas suas implicações, de maneira mais saudável.
O nosso crescimento interior vem desse contato de experiências diretas com o outro, no dia-a-dia. Através de nossas experiências diárias vamos abrindo caminhos novos em busca do mais profundo de nosso ser.
Para Carl Jung “A alma humana não se conhece apenas dentro de um consultório do analista, mas na experiência da vida tal como é vivida com todas suas implicações. Toda experiência interior tem que ser mediada pela relação com o outro. Nunca alguém se individualiza sozinho, e a finalidade da individuação não é ficar só, pelo contrário, é estar em relação, cada um a seu modo”.
O que falta a maioria de nós é remexer nesse baú de memórias. É tecer com o outro uma colcha de histórias, tecer relações nessa teia que nos liga novamente ao humano.
Nessa busca de trazer à tona o resgate de nossas histórias a Consultoria de Arte Conta e enCanta oferece a oficina “Tecendo fios da Memória” –
Objetivos:
  • Remexer o “baú das histórias” de cada participante.
  • Estimular a memória a partir dos sentidos: olfato, tato, paladar, visão e audição.
  • Costurar as histórias de cada um, entrelaçando experiências de vida.
  • Tecer uma colcha de retalhos numa metáfora da construção da própria vida.
Atividades
  • Hora do Conto: Contar a história “Guilherme Augusto Araújo Fernandes” Ed. Brinque Book
  • Montagem do baú de memórias: cada participante trará de casa um baú contendo objetos, fotos, cartas, etc, que representem memórias quentes, antigas, tristes, alegres, que valem ouro. Divididos em pequenos grupos, apresentam o seu baú de memórias e em seguida elegem um para contar, ao grupão, uma das memórias.
  • Memória olfativa: A facilitadora levará para a sala, vários potes contendo produtos cheirosos: sabonete, pó de café, cravo, canela, erva-doce, hortelã, chocolate, etc. Cada participante, de olhos fechados, sentirá o cheiro que, automaticamente, o remeterá a uma história. Em seguida, contará para o grupo a história do cheiro.
  • Memória Visual: Observar um velho casarão e imaginar histórias que poderiam ter acontecido ali.
  • Memória Auditiva: Uma música que remeta a um tempo vivido.
  • Colcha de Retalhos: A facilitadora pedirá a cada participante, um retalho de “americano cru” 30X30 cm, tinta AGRIPUFF, própria para tecido e pincéis. Orientar o grupo no sentido de que cada um pinte, ali, um “retrato” de sua vida revelando uma memória marcante. Após pintar os retalhos, o grupo irá tecer uma colcha de histórias, numa metáfora à construção da própria vida: “a união das partes formando o todo” guardando, no entanto, a originalidade de cada um. Para prolongar o prazer de revisitar o “Baú das Memórias”, sugerir aos participantes que assistam ao filme “Colcha de Retalhos”.
  • Sugestão: Sortear a colcha entre os participantes ou rifá-la revertendo o dinheiro a um asilo.
Fica aqui nosso convite para que cada uma de vocês saboreie este prato que serviremos e, a partir do seu olfato, do seu paladar, seu tato e sensibilidades outras deguste e digira o que lhe for servido conforme seu metabolismo se processar. Sirvam-se. Cada prato nos presenteia com aprendizagens pelo simples fato de saboreá-los. E por que não dizer que depois desta aventura... seremos felizes para sempre!!!
Bibliografia.
-JUNG, G. Carl. O Homem e seus Símbolos – Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira
-KEEN, Sam. VALLEY-FOX. A Jornada Mítica de Cada Um São Paulo, Editora Cultrix, 1973/1989
-VON FRANZ, Marie-Louise - A individuação nos contos de fada - São Paulo, Paulus, 1984
-REMEN, Rachel Naomi. Histórias que curam: conversas sábias ao pé do fogãoSão Paulo: Ed. Ágora,
Maria Norma Sales: Pedagoga, Arte-educadora, Consultora de Arte, Contadora de Histórias diretora-sócia da Consultoria de Arte Conta e enCanta.

* Este texto é uma contribuição de uma grande amiga, desde a infância, Norma, maravilhosa Contadora de Histórias que todos encanta com seu belísssimo trabalho.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Papopsy pergunta: queremos ser amados, mas estamos prontos para isso?


Leio na Internet muitos conselhos e parábolas sobre relacionamentos. No entanto, um aspecto costuma não ser abordado. Como devemos tratar as pessoas que nos querem bem e tudo fazem para ter nosso afeto e a nossa atenção? Será que as menosprezamos, que as tratamos bem? Ou as manipulamos para obter ainda mais carinho e atenção?

Para ilustrar essa pergunta, contarei uma experiência que tive em Brasília. Como profissional de Psicologia tenho atuado em várias atividades, tanto na área clinica como na organizacional, além de ser voluntária em trabalhos na comunidade. Em um deles, atendi crianças e adolescentes carentes.

Era um abrigo em que tive a oportunidade de trabalhar em um processo de adoção de dois irmãos, um menino de sete anos e sua irmã de seis, por um casal estrangeiro. Estas crianças tinham chegado à instituição muito novas. O menino, com pouco mais de um ano e a menina tinha meses.

O abrigo é constituído por casas-lares onde funcionárias contratadas exercem o papel de “mães sociais”. Elas cuidam das várias crianças sob sua responsabilidade, constituindo uma espécie de núcleo familiar.

O primeiro desafio foi o de atenuar o forte vinculo que a mãe social e seu marido tinham conseguido construir com essas crianças em especial para abrir espaço à entrada de novos pais. A aceitação da nova família – isto é, do casal de estrangeiros –  aconteceu de forma tranqüila, após algumas sessões de psicoterapia.

Ao final de dois meses, os dois irmãos já estavam até ansiosos para conhecer os novos pais e, quando o dia chegou, o encontro entre eles está entre as cenas mais emocionantes da minha vida.

A segunda etapa do trabalho foi fazer a integração entre pais e filhos, inclusive porque eles falavam línguas diferentes. O casal estrangeiro ia visitar as crianças todos os dias e sempre levava presentes. Também saíamos juntos, os cinco, para que os futuros pais pudessem interagir melhor com os irmãos sem a interferência dos outros meninos do abrigo, sempre muito curiosos.

As duas crianças estavam superfelizes, recebendo muito carinho e muitos presentes. Era bom demais!

No entanto, um dia o casal chegou e me disse estar muito preocupado. Será que aquelas crianças eram inafetivas? Será que não conseguiam abraçar e beijar as pessoas pelo fato de sempre terem vivido em um abrigo? Será que realmente queriam ir embora com aquele casal?  Será que gostavam deles mesmo?, pois nunca os abraçavam e beijavam.

Fui então fazer uma sessão psicoterápica com os dois e ver o que estava acontecendo. Brincamos, conversamos, nos abraçamos, trocamos afetos, tudo muito bem. Eles me revelaram que estavam gostando muito dos novos pais, já os chamavam inclusive de papai e mamãe.

Então finalmente perguntei: Porque vocês então não abraçam e beijam o papai e mamãe? Qual não foi a minha surpresa quando o garotinho, com um olhar sapeca e um riso maroto, respondeu: “Tia, nós estamos dando um nó na cabeça deles!”

Pois não é que os danadinhos, aquelas criancinhas carentes e frágeis de um abrigo, estavam conseguindo manipular direitinho o casal para ganhar mais presentes e afetos? Estou falando de crianças que nunca tinham saído de um abrigo, não conheciam computador, internet etc.

Seu nível de informação era baixíssimo, mas, mesmo assim, já sabiam manipular os sentimentos dos adultos. E com consciência do que estavam fazendo. Não nos enganemos! Criança só é pequena, mas não é boba não. Não devemos nem podemos subestimar qualquer pessoa.

Bem, só para vocês saberem, os pais foram devidamente orientados e a adoção foi um sucesso. Após mais de três meses no Brasil, por exigências legais, os quatro partiram e até hoje mantenho contato com eles.

Fazendo um paralelo com nossa vida afetiva na idade adulta, deixo algumas perguntas: será que sabemos receber amor e respeitar quem realmente nos ama? Ou achamos que as pessoas que nos querem bem são bobas e manipuláveis? Será que as subestimamos por gostarem de nós?

Ou, na realidade, não acreditamos ser suficientemente bons para recebermos o amor de alguém que consideramos admirável? Estamos preparados para isso?

Deixo estas questões para reflexão e fico aguardo as respostas de vocês, pois este blog é um espaço em que pretendo não apenas escrever, mas também ouvir, que é a sagrada missão dos psicólogos.

terça-feira, 29 de março de 2011

“Dá para ser feliz”

Para a psicóloga junguiana Daina Machado*, a psicoterapia pode ajudar as pessoas a enfrentarem seus traumas e encarar os desafios da vida de forma mais eficiente
Cada ser humano tem um destino ou podemos mudar nossa vida? As questões transcendentais do destino permanecem no campo das religiões e do esoterismo. Já na psicoterapia, é possível enfrentar traumas e criar comportamentos mais adequados aos desafios da vida. As pessoas podem mudar e se sentir mais felizes.
Por que é tão difícil ter relações afetivas estáveis hoje em dia? Projetamos na outra pessoa nossos desejos e necessidades e ficamos frustrados. O outro é diferente do que sonhamos, tem sua própria personalidade. Precisamos descobrir o prazer de ver o parceiro como ele é - e não como gostaríamos que fosse.
E os problemas de relacionamento no trabalho? Vivemos numa sociedade competitiva, que subestima as relações humanas. Priorizamos a meta, esquecendo de que precisamos de cooperação para chegar até ela. O ideal é que todos ganhem, mesmo que as vitórias não sejam iguais para todos. A competição é estimulante para a personalidade. Mas não pode ser predatória, pois leva ao estresse e a doenças emocionais. Uma psicoterapia qualificada ajuda o indivíduo a se relacionar melhor no trabalho, com o parceiro e com a família.
Foto: Divulgação

·        Daina Diniz Machado CRP 629
Tel: 61 9968-1249
Consultório: SEPS 705/905
Ed. Santa Cruz, Sala 229
Brasília - DF