*Por Thaïs Machado de Moraes Correia
Evelyne chega ao término da sua análise? Ela tem um nível de elaboração que lhe permite falar sobre toda a sua experiência, eliminando o que é dispensável, descartável - um resto - sem perder de vista o essencial. Ela fala sobre o primeiro encontro com um analista, que não avançou da primeira vez ; em seguida sobre a sua transferência com o segundo analista, que para ela encarnava, na transferência, o equilíbrio, a calma, a dádiva. Também traz a repetição, a necessidade da repetição, para assim se dar conta de que a própria análise era quem trazia “a coisa”, das ding. “Talvez fosse preciso fazer a coisa aparecer de forma repetitiva e depois... é o que me resta por que eu lhe digo.” Não é mais a coisa, é o resto da coisa, o que a palavra reduz dessa coisa. O que a faz deixar enterrados os cadáveres que apareciam em meio às ondas que a invadiam é uma intervenção do analista. Ele a faz perceber que já é hora de se desvencilhar disso, ao invés de fazer disso um estilo de vida, um orgulho; desautorizando assim seu sofrimento. Podemos dizer que ele localiza e barra o gozo em que ela vivia mergulhada. Finalmente ela fala sobre a pulsão, uma força de morte que a arrastava desde o início e uma escolha pela vida que vai ocorrendo, substituindo os seus sonhos e pesadelos terríveis com cadáveres pelos sonhos com flores. A sua travessia ela compara com “atravessar Calcutá”. “Atravessar o horror, mas, uma vez atravessado... é só.” Se antes a análise caminhava nesse sentido, da travessia da fantasia fundamental, hoje há identificação ao sintoma, e ao final, uma invenção: Sinthôme.
Léandre procura um analista por que precisa fazer o luto do pai. Depois de 27 anos de coisas não ditas ele procura o analista, mas falta às sessões, voluntária ou involuntariamente, até se dar conta que ele faz isso por que se negligencia e num determinado momento ele não quer mais ficar nessa posição. Fala sobre a passagem para o divã, que marca essa mudança, e um não saber “onde colocar os pés”. É bem isso o que ocorre na passagem ao divã: perdemos um pouco o chão... Alguns não sabem o que fazer com as mãos, ou perdem o chão, ou perdem o olhar do analista. É um corte na relação com a imagem do outro. Muitas vezes não sabemos o que fazer com esse corte. Na primeira clínica, uma análise revelava o passado; hoje, inventa o futuro.
Agnès faz um doloroso descolamento do irmão autista ou deficiente. Ela ‘desmistifica’ ao longo da análise a idéia de que esta leva a um conhecimento de si mesma. Aliás não só Agnès, mas muitos são os que
pensam que a análise serve para alguém se conhecer melhor...Assim ela não evita o impossível e fica mais aberta às surpresas. Ela deixa de ser a que iria cuidar do irmão - um dito materno - para cuidar de sua própria vida. Assim pode ver o que a história do irmão tem a ver com a dela, deparando-se com a sua falta-a-ser. Na sua condição de parlêtre, enfrenta o risco e inventa novas saídas.
Émilie acha que nunca irá passar ao divã. Ela marca uma retificação da sua posição subjetiva ao sair da queixa, da posição de vítima para se implicar na análise. Isso ocorre através de uma pontuação do analista que a faz sair da posição de “doente” para a de analisanda. Numa sessão em que fala sobre a sua feminilidade o analista diz que, na próxima, ela poderia “se deitar”, se assim o quisesse. Pode vir a acontecer uma entrada em análise ou não. Análise mais que interpretação (primeira clínica) é responsabilização (segunda clínica) e é esse o caminho que Émilie poderá percorrer se assim o desejar. A clínica caminha para fazer ressoar e não para a compreensão. Será que Émilie captará essas ressonâncias, ou ficará presa ao registro do entendimento?
Gérard tinha muitos preconceitos com relação à psicanálise, principalmente com relação ao pagamento. Ele sabe depois que há uma falsa idéia de que não se faz análise se não se tem dinheiro. Qual então o valor do dinheiro numa análise, já que há de se pagar o preço? Ele havia parado de trabalhar, achava que não podia, pois os seus sintomas eram bem graves. O analista o acolheu, mas depois o fez pagar, voltar a trabalhar para pagar as sessões. Viver é contrair dívida e há um dom impagável, que é o da vida. Gérard avança na análise, pois ele realmente consente com a análise, consente em falar, consente com o inconsciente, diz: “E eu só tinha uma pressa: era a quarta-feira seguinte... e minha vida era a quarta-feira seguinte. Faz sofrer, mas, é bastante engraçado mesmo assim.” No lugar da verdade, encontra uma certeza.
Didier tinha problemas para assumir a homossexualidade. Isso o fazia ‘matutar’ e não falar, o que lhe trazia angústia e a sensação de aniquilamento. Entretanto, isso lhe servia de mote para a sessão seguinte e assim ele começa a falar o que queria evitar. “A análise é um negócio impensável”, diz ele. “(...) pode se tecer um laço amoroso entre um cara que ouve você e você que se deita, que se abandona sobre um divã... (...) É como se nessa experiência amorosa, a gente conseguisse captar aquilo que faz sofrer.” Amor tece dor? Aí está a clínica do real, onde não mais há uma primazia do simbólico, mas traz conseqüências na vida de um sujeito. Podemos então dizer que há um homem aí pronto a todas as circunstâncias.
Enfim, Judith Du Pasquier conseguiu, ela também, reduzir, decantar, cortar, extrair o horror de Calcutá do seu filme, transmitindo, quase com sofisticação, através dos detalhes, os ‘pequenos grandes ganhos’ que podemos obter numa análise, numa travessia aonde não se chega a nenhum Shangri-la. Se, como afirma Forbes, “a felicidade não é bem que se mereça”, só podemos bordejá-la no acaso, ou tocá-la bem de leve.
As contribuições da psicanálise para a produção cinematográfica são inúmeras, e a imagem do psicanalista em muitos filmes americanos é muito distorcida. Ao vermos esse filme, nossas inquietutes se sobrepõem, pois cada um reviu ou viu pela primeira vez, o que sai da boca, de forma singular, daquele que está em análise e que este não é um discurso como os outros. Isso porque esse filme recolhe as palavras dos sujeitos em análise; sem adotar ou impor nenhum ‘modelo’ de analista, como é comum nos filmes que usam isto como um clichê. Nisso reside a riqueza dessa produção cinematográfica: a aposta de que a palavra na psicanálise, traz sempre a dimensão da surpresa, onde cada um faz a ‘montagem’ de suas próprias ficções.
Nessa película vemos claramente nos relatos, recortes, fragmentos de análises, a bizarrice de cada um, a maluquice, que torna interessante o gozo que se particulariza para então se coletivizar. Não há saúde
sem loucura. Miller nos lembra em “A salvação pelos dejetos”, que saímos finalmente do campo do normal e do patológico para entrar no campo das paixões.
Cito Miller:
“Com essa fórmula “a salvação pelos dejetos” ele define o surrealismo, a via escolhida pelo surrealismo. E digo “a via” no sentido do Tao. É o caminho. É também a maneira de fazer, de se colocar, de se deslizar no mundo, no discurso, no curso do mundo que é discurso. E me parece muito justo dizer que André Breton prometeu a salvação pela via dos dejetos. Mas é ainda mais justo dizê-lo de Freud. Aliás, a promessa surrealista nunca teria sido proferida se não tivesse havido antes a psicanálise, a descoberta freudiana que foi, como se sabe, primeiramente, a desses dejetos da vida psíquica, os dejetos do mental que são o sonho, o lapso, o ato-falho e mais além, o sintoma. Mas também a descoberta de que levando-os a sério, e mais ainda, estando atento a eles, o sujeito tem chance de se salvar”.
Como aqui estamos assistindo a Psicanálise sendo revisitada por cineastas, e onde o cinema é considerada a sétima arte; podemos ao ver um filme singular como este, feito de bricolagens de discurso, de pequeninos testemunhos, que foi preciso, nos diz Miller, que psicanálise aparecesse com sua promessa de salvar pelos dejetos para que se percebesse que, até então só se havia procurado a salvação pelos ideais. Esse filme colabora para que nós possamos também desidealizar a psicanálise.
Não mais temos a sublimação da era vitoriana e a sua efetividade naquela época. De um Lacan que dizia que a única satisfação permitida pela promessa analítica seria a sublimação; hoje advém o gozo, a arte como intérprete, onde a arte (o cinema aqui como veículo) se apresenta aí sem transposição, sem reparos, sem véu. Falamos com freqüência que arte contemporânea se encontra sem véu; onde o objeto de expõe sozinho. Do museu aos shoppings, nos resta uma aposta em dar uma virada e ainda causar alguma surpresa, ali onde pouco há o que inventar, onde as obras hoje não devem poluir o ambiente nem denegrir o espaço público...
A psicanálise tem muito a contribuir, sem precisar de um discurso moralista e conservador, mas adota outro discurso, revolucionário, para cada época. Então estamos diante de uma renovação ética, de um período marcado por profundas mudanças que nem temos tempo de absorver. Não teríamos como diz Baudelaire, que ir buscar 'algo novo' ao irmos em direção ao desconhecido, ao não-sabido? Freud descobriu que esse 'algo novo' no desconhecido é a repetição. É, portanto, a presença em cada um de nós de algo velho, operativo, mais poderoso que o novo. Em Freud, o velho e o novo se confluem, pois seu estilo é o de mesclar elementos atuais e antigos. O cinema faz isso de forma magnífica. Afinal esse filme vem legitimar a presença da Psicanálise no mundo.
Os sintomas mudaram e sempre mudam porque o homem muda a configuração de mundo também; no entanto, há sempre algo que diz algo, uma mensagem a ler. O sintoma não tem só significação decifrável, mas relação com o inconsciente real. Por isso, resistem ao dizer. E é exatamente por essa razão, que se repetem. Hoje não mais a vergonha de falar em público e sim a hiperexposição sem limites nos facebooks, nos orkuts, e literalmente neste filme onde a psicanálise vai ao cinema. A psicanálise aqui está no divã.
Após Freud, sempre houveram encontros arriscados entre preocupações estéticas e abordagens psicanalíticas de todos os matizes e para todos os gostos. Sublimação de excelência foi encontrada por Freud em Leonardo da Vinci, que criou uma escrita a partir do desenho e que também na solidão de seu saber sublimou sua vida sexual. Freud definiu por sublimação a transformação de nossas piores inclinações
em alvos socialmente aceitos; ou seja, esse seria um dos destinos das pulsões vis do homem diante das restrições culturais. Há outro destino possível das pulsões: as formações sintomáticas, que passaram por um recalcamento e retornam. Sintoma e sublimação então se apresentam como modos alternativos de satisfação. O sintoma traz sofrimento e a sublimação poderia ser pensada como uma saída mais feliz; pois não paga o preço do recalque. Mas verifica-se que a sublimação não é sem sofrimento, como testemunham o relato de artistas, escritores e cineastas. Segundo Freud, a sublimação da libido se não acompanhada por outras fontes diretas da satisfação sexual, gera um sofrimento, pois satisfaz aos impulsos do supereu. Nesse sentido, a sublimação não é uma saída feliz. Mas lembremos que a vontade por demais humana de ser feliz e assim permanecer é também desiludida por Freud, pois ele nos lembra que não entrou nos planos da criação que o homem fosse feliz! No entanto, a sublimação pode fazer laço social, quando associada à capacidade de invenção a partir do que há de mais íntimo e singular nas manifestações artísticas. De fato, os sujeitos quando sozinhos sublimam o tempo todo; vêem a beleza, o bem, o verdadeiro, para não fazerem outra coisa...
Sublimação tem sua origem na alquimia, que seria a transformação do vil metal em ouro. Na química, significa a passagem direta do estado sólido para o gasoso, sem passar pelo estado líquido. E no plano moral, significa a purificação da alma ou elevação desta. O amor cortês é o paradigma posto que o objeto de arte revela uma inquietante estranheza. Não é então como ideal que a arte aborda o objeto pulsional. Tanto é que não sabemos mais qual a diferença, a barreira entre o objeto de arte e o objeto comum, entre dentro e fora, entre objetividade e subjetividade – antes tão bem demarcados e hoje apenas bordas, litorais.
A sublimação para Lacan é o que eleva o objeto ao estatuto da Coisa (Das Ding, para Freud). Lacan situa a Coisa como sendo a partir da qual o homem cria todas as formas que são do registro da sublimação. Ela será, sempre, representada pelo vazio, pois em toda forma de sublimação, o vazio será determinante. Através de inúmeros objetos a arte organiza o vazio, a partir do impossível de imaginar e de pensar.
A arte para Lacan é um artifício, jogando aí com a homofonia entre arte, invenção, artifício como ficção. Lacan localiza a arte em um avesso da Psicanálise, o saber fazer do artista. Nem todo mundo é artista, nem todo mundo é poeta. Então, os sujeitos neuróticos querem ser liberados do sintoma porque não conseguem fazer dele um sinthoma, como Joyce fez com a sua escrita. Aliás, é Lacan que inventa esse nome de sinthoma, no seminário 23 para substituir o conceito de sublimação. A noção de sinthoma que Lacan elabora a partir de Joyce, nos permite repensar as relações entre Psicanálise e obra-de-arte, entre Psicanálise e cinema, fora do circuito da sublimação, dominante desde Freud.
Hoje, a sociedade vive de informações on-line e toda a população tem acesso à mesma mídia, embora haja um grupo socialmente estabelecido e uma população marginal, excluída. O homem, a partir de qualquer lugar, pode considerar-se no centro do mundo. A informação profusa e difundida permite ao homem ver o mundo que quer todo voltado para si. Ao eliminarmos a limitação do espaço, passamos a viver em função do tempo. Isto implica perdermos a distância. Bombardeado de informação, o homem ficou sem possibilidade de introspecção ou contemplação. Não há mais silêncio, não há “ocasião de degustar informações consigo mesmo”. A dignidade, desse ponto de vista, é a de se colocar protegido do mundo da informação, dos modismos, do marketing e da criação de desejos artificiais...
Do desejo, que é finito, ao gozo em excesso isto não significa conformismo. A pergunta de hoje seria: como conectar sua maluquice ao mundo? Vamos buscar isso, esse excesso, nas instituições, nas universidades, na literatura, vendo um bom filme como esse... Esse filme é assim, meio maluquinho,
porque estamos tomados pela maluquice... Se tudo é apenas sonho, todo mundo é louco, ou seja, delirante!
Aqui é bom lembrar-se do Encontro Americano da EBP que acontecerá em junho no Rio, cujo tema é: “ a saúde para todos não sem a loucura de cada um”.
Thaïs Machado de Moraes Correia é psicóloga e psicanalista de orientação lacaniana. É também professora da Universidade Federal do Maranhão. Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise, DG-MA.
* Este texto é uma contribuição da querida prima e excelente profissional Thaïs, cujo trabalho de maior sucesso e amor é sua filha, a artista plástica Marina